Ao chegar, deparei-me com o thrash metal com influências de heavy da Lethal Dose, de Barra de São João-RJ. A banda apresentava uma execução extremamente coesa, com ótimo vocal e influências de Metallica, Megadeth e Judas Priest. Fechavam o show com a ótima Jesus Super Christ, com refrão tão marcante que me levou a achar que tratava-se de um cover. Engano meu, é composição própria. Segundo anunciava o vocalista, estão prestes a lançar um novo EP.
A próxima a se apresentar era a Maieuttica, do Rio de Janeiro. Com dois vocalistas de boné, a banda abusava dos graves, com passagens grindcore/new metal e os vocais se alternando: um cantava trechos melódicos; o outro, berros guturais. A plateia demonstrou conhecer as músicas, abrindo rodas de pogo e performatizando todas as músicas com pulos, headbanging e socos no ar. A Maieuttica também apresentava músicas que vão entrar em seu novo EP, ainda em gravação, e uma cover de “Before I Forget”, do Slipknot. Após uma participação do vocalista da banda Ágona (que se apresentaria mais tarde), era a vez de Thuany, da Primícia, participar, antes de encerrarem o show.
Durante o evento eu encontrava minha colega da UFF e Labcult, Natália Ribeiro e (meu então amigo do facebook) Dover Lopes (da banda Indic Blue), que me davam dicas sobre as bandas locais e seus gêneros musicais. O encontro me lembrou da movimentação e parcerias do coletivo Juventude Rock na Região dos Lagos. Natália, além de editora do blog Rockalogy e participante do Metal Busted e do M.U.C. (Movimento Underground Carioca), também encabeça um mapeamento online de bandas de rock do Estado do Rio de Janeiro, o Levantamento de Bandas RJ. Esta plataforma tem a intenção de reunir dados e informações importantes sobre a cena do rock no estado, para se pensar em ações em conjunto e possíveis parcerias. Alguns dias antes do evento, eu havia notado uma postagem na página oficial do Facebook da Juventude Rock estimulando as bandas da região a participarem do mapeamento.
Notei também a participação de expositores no evento: Thiago Abs com sua mesa repleta de Zines produzidos por ele; Pascoal Mello, da banda Cervical, com CDs e camisas de sua banda e também de bandas parceiras: “isso é costume entre os artistas, um ajuda o outro; quando viajamos, não levamos apenas nossos CDs, mas ajudamos a divulgar também os de outros artistas”, revelava o vocalista da Cervical (que se apresentaria mais tarde). Depois do show, a Maieuttica também montava sua banquinha com produtos. Além disso, muitos fotógrafos registravam o festival, inclusive um jornalista da Folha Tamoios. Chamava atenção também um banner da Agatao Tattoo, apoiadora do festival.
A quarta banda a se apresentar era a Algoz, do Rio de Janeiro (do conjunto de favelas da Maré). Com uma vocalista de voz grave e afinada, a banda apresentava canções com letras em português, como Fungos (que possui videoclipe), “Lobotomia” e a semi-balada “Verdades e Mentiras”, alternando peso e melodia.
Uma coisa que me chamou atenção foi as redes sociais que as bandas utilizam para se divulgar: a vocalista citava a página oficial da Algoz no Facebook. Pelo visto, Mark Zuckerberg teve sucesso ao tentar ocupar agora o papel de redes outrora populares como o quase finado Myspace.
No entanto, o Grito Rock é um festival viabilizado pela plataforma Toque No Brasil, antiga parceira do Fora do Eixo (idealizador do Grito Rock) que agora foi comprada pelo próprio. O Toque No Brasil é uma tecnologia muito interessante, reunindo em uma mesma plataforma produtores, músicos e casas de show, negociando entre si.
Para se inscreverem no festival, as bandas precisam criar um perfil na plataforma e se candidatar aos eventos. Porém, esta parece ser a única utilização das bandas (ao menos no Rio) da plataforma: não vejo, nos shows que vou, nenhuma banda citando o Toque No Brasil como perfil. Normalmente, a maioria das bandas tem seu próprio site/blog ou citam o Facebook, muito forte no momento. Myspace e Palco MP3 me parecem relativamente abandonados.
Já era o momento da Primícia (da vocalista e produtora do evento Thuany Motta), subir ao palco. Mal começavam seu show e a cantora convocava uma roda de pogo, que automaticamente se formava na plateia. A Primícia conta com baixo, guitarra, bateira e vocal (todos produzindo o evento), em um som que funde gêneros como hard rock, grunge e heavy metal. Lançaram na MTV Brasil o clipe de Siga o Coelho Branco, tocada no show.
As covers também ajudam a definir a banda. Apresentavam “Ace Of Spades”, clássico do Motörhead, e a vocalista entrava na roda enquanto o baixista continuava os vocais.
Em um determinado momento, Thuany chama Franklin, vocal do Maieuttica, para cantar junto a “Gêmeos”, próximo clipe da Primícia. A música é um new metal/metalcore alternando os vocais femininos de Thuany com o gutural de Franklin. Grande momento.
Logo depois, Thuany perguntava, para alegria da plateia: “quem aí quer Iron Maiden?”, e tocavam “Be quick, or be dead”. O headbanging comia solto e a banda emendava em “Paranoid”, do Black Sabbath. A euforia era tanta que o público pegava o microfone da cantora e se arriscava nas melodias. A banda partia então para uma música própria, “Metamorfose”, com o baixista tocando no meio da plateia, e avisava que esta semana vão divulgar em sua página oficial no Facebook o site novo. Fecharam o show com uma cover de “Enter Sandman”, do Metallica.
O clima pesava (no som, obviamente) com a banda Ágona, talvez a mais furiosa da noite, com sonoridade death metal e nuances grindcore. Mesmo com o vocal sinistramente gutural de Alan Muniz, era possível entender as letras em português da banda. Fiquei surpreso. Alan também alternava os vocais, entremeando guturais com viscerais, como bem me lembraram Natália e Dover Lopes.
Em meio à fúria extrema, o vocalista ajoelhava e repetia (sem gutural): “esse é o destino da nossa salvação. Aleluia, irmãos! O resultado da nossa criação”. A roda de pogo não parava enquanto o vocalista mordia o microfone e berrava. Percebi também em um momento que ele sugeriu com o dedo a formação de uma nova roda, sendo atendido prontamente pelo público. Terminavam a música com um trecho melódico, cantado também pelos demais músicos.
A Ágona anunciava então que iria tocar uma que “está no perfil do face”, avisado que lá encontramos o CD para download, e que em breve estarão vendendo a versão física do álbum. Finalizavam com a música “Utopia”, e novamente o vocalista simulava uma reza. Desta vez não entendi o que dizia a “oração”.
Finalizando o evento, a Cervical, banda que conheci pouco antes conversando na banquinha, armava seu pano de fundo no palco, com a logo da banda. O grupo apresentava um metalcore com influências de hardcore old school. Agora não apenas a roda abria, mas rolava stage diving também. O vocalista berrava músicas como Dar o Sangue, que possui um videoclipe gravado.
Durante a apresentação, Dover me alerta que uma das grandes influências da Cervical é a Confronto, também de metalcore. Outra banda que Dover cita como sendo de grande influência para as bandas da região é a Solstício. Dover também me fala da existência, na região, de grupos skinheads e punks, que convivem harmonicamente (coisa rara até um tempo atrás) e diz que esses grupos costumam frequentar shows de bandas hardcore como a Cervical.
De relance, durante o show, ouvi o desabafo de uma fã ao meu lado: “eu sou a única pessoa de Arraial (do Cabo) que veio! O pessoal de lá não prestigia! Até gente de Macaé tem aqui!”, o que me levou a pensar na questão da união e troca entre cidades próximas: isso poderia perfeitamente ser ouvido em um show em São Gonçalo (cidade vizinha à minha) em relação à Niterói (cidade onde moro). Daí a importância de pessoas mapeando, não apenas as bandas de suas cidades, mas também casas de show, produtores e público.
A Cervical encerrava o show com a platéia pedindo mais. A banda não tocou mais músicas em respeito à hora já avançada (22hs): o local do evento é residencial.
Na saída, uma grata surpresa: um dos participantes do evento me pedia informação (que eu obviamente não sabia), e notei alguns CDs na mão dele. Pedi para ver, procurando saber que bandas eram aquelas. Descobri então que uma destas bandas, a Abomination Wide, de Rio das Ostras, tinha comparecido ao evento e distribuído gratuitamente seu disco físico para quem quisesse levar (como não vi isso?). Em tempos de cultura digital, brigas por direitos autorais, iTunes e download pago, novos artistas descobrem a distribuição física gratuita de CDs como estratégia de divulgação.
Saindo da casa de shows e dando de cara com a praia, pensava no divertido contraste (ao menos pra mim) entre clima praiano e show de rock pesado. Em plena Região dos Lagos, jovens se mobilizam em torno de gêneros musicais extremos de sua preferência e evidenciam isto em performances corporais, vestuários, acessórios, tatuagens, piercings e alargadores. E também rodas de pogo e stage divings. Assim como qualquer outro gênero, rock pesado também aciona o corpo, a dança, afetividades, identidades e todo um imaginário popular.
Como afirma Jeder Janotti (professor da UFPE e coordenador do grupo de pesquisa Mídia e Música Popular Massiva), o Heavy Metal (e aí incluo demais gêneros do rock extremo) é uma experiência simbólica; um campo de produção de sentido para além da simples classificação de estilo musical; um lugar onde percebemos que os símbolos atuam na ‘experiência vivida’, “como um espaço onírico que permite aos headbangers a partilha de sentimentos e atitudes diante do mundo contemporâneo.” (Jeder Janotti – “666 THE NUMBER OF THE BEAST: Alguns apontamentos sobre a experiência simbólica a partir das letras, crânios, demônios e sonhos do heavy metal”).
quinta-feira, 28 de março de 2013
Grito Rock Cabo Frio – rock extremo na Região dos Lagos
Por: Rafael Lage*
“Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância.” (Jack Kerouac, “On The Road”).
No dia seguinte ao Grito Rock no Circo Voador, eu rumava – ainda sob os efeitos do cansaço – ao Grito Rock Cabo Frio. Ao contrário do Circo, o evento na Região dos Lagos era repleto de bandas de rock extremo (metal, hardcore e afins), o que me chamou atenção para a diversidade de gêneros musicais sob o mesmo nome Grito Rock: no dia anterior, o Circo Voador presenciou shows de rock alternativo e pop/rock dançante. O festival, apesar de carregar o Rock no nome, não se baseia necessariamente em gêneros, mas sim, na necessidade de se divulgar artistas com trabalho autoral e conectar produtores e músicos em um grande ritual festivo mundial.
O evento em Cabo Frio era realizado no distrito de Unamar, que, segundo seus participantes, fica a cerca de 40 minutos da cidade. Na minha frente, uma praia repleta de quiosques; no céu, um azul ensolarado; ao meu lado, uma concentração significante de roupas pretas, acessórios de couro, moicanos verdes ou cabelos longos. Não tive dúvidas: era ali.
O local do evento (Katespero) era um espaço amplo, repleto de roupas e acessórios (devidamente guardados) de escolas de samba, que naquele dia recebia algo totalmente diferente. Como eu tinha ido dormir às 6hs da manhã daquele dia (por conta do Grito Rock no Circo Voador), acordei por volta de 13hs e só consegui chegar lá na segunda banda, perdendo (infelizmente) a apresentação de abertura, a Hemeride, de Barra de São João. Uma pena. O release da banda no perfil do Facebook informa que vão “do clássico Metallica ao atual Bullet for my Valentine. O objetivo é ter um repertório autoral e de muita qualidade!”
A Hemeride foi convocada às pressas para o evento, já que a banda originalmente escalada, a Rose Red, teve um imprevisto e não pode ir. Sobre a Hemeride, Thuany Motta, produtora do evento, relata: “chamei os meninos em cima da hora e quebraram o maior galhão! o show deles foi ótimo. São 6 na banda, sendo 3 guitarristas (quase um Iron Maiden, rs). Eles levam um som que vai do heavy metal ao metalcore.”
Thuany foi peça-chave na produção do evento. Ligada ao coletivo Juventude Rock, que produz eventos na Região dos Lagos, a cantora da banda Primícia revelava que levou o evento adiante ajudada por cerca de oito “anjos”, dois deles, inclusive, integrantes da banda. Apesar da distância do local e de ser um show realizado em um domingo à tarde, o evento recebeu muitos interessados e conhecedores das bandas.
Ao chegar, deparei-me com o thrash metal com influências de heavy da Lethal Dose, de Barra de São João-RJ. A banda apresentava uma execução extremamente coesa, com ótimo vocal e influências de Metallica, Megadeth e Judas Priest. Fechavam o show com a ótima Jesus Super Christ, com refrão tão marcante que me levou a achar que tratava-se de um cover. Engano meu, é composição própria. Segundo anunciava o vocalista, estão prestes a lançar um novo EP.
A próxima a se apresentar era a Maieuttica, do Rio de Janeiro. Com dois vocalistas de boné, a banda abusava dos graves, com passagens grindcore/new metal e os vocais se alternando: um cantava trechos melódicos; o outro, berros guturais. A plateia demonstrou conhecer as músicas, abrindo rodas de pogo e performatizando todas as músicas com pulos, headbanging e socos no ar. A Maieuttica também apresentava músicas que vão entrar em seu novo EP, ainda em gravação, e uma cover de “Before I Forget”, do Slipknot. Após uma participação do vocalista da banda Ágona (que se apresentaria mais tarde), era a vez de Thuany, da Primícia, participar, antes de encerrarem o show.
Durante o evento eu encontrava minha colega da UFF e Labcult, Natália Ribeiro e (meu então amigo do facebook) Dover Lopes (da banda Indic Blue), que me davam dicas sobre as bandas locais e seus gêneros musicais. O encontro me lembrou da movimentação e parcerias do coletivo Juventude Rock na Região dos Lagos. Natália, além de editora do blog Rockalogy e participante do Metal Busted e do M.U.C. (Movimento Underground Carioca), também encabeça um mapeamento online de bandas de rock do Estado do Rio de Janeiro, o Levantamento de Bandas RJ. Esta plataforma tem a intenção de reunir dados e informações importantes sobre a cena do rock no estado, para se pensar em ações em conjunto e possíveis parcerias. Alguns dias antes do evento, eu havia notado uma postagem na página oficial do Facebook da Juventude Rock estimulando as bandas da região a participarem do mapeamento.
Notei também a participação de expositores no evento: Thiago Abs com sua mesa repleta de Zines produzidos por ele; Pascoal Mello, da banda Cervical, com CDs e camisas de sua banda e também de bandas parceiras: “isso é costume entre os artistas, um ajuda o outro; quando viajamos, não levamos apenas nossos CDs, mas ajudamos a divulgar também os de outros artistas”, revelava o vocalista da Cervical (que se apresentaria mais tarde). Depois do show, a Maieuttica também montava sua banquinha com produtos. Além disso, muitos fotógrafos registravam o festival, inclusive um jornalista da Folha Tamoios. Chamava atenção também um banner da Agatao Tattoo, apoiadora do festival.
A quarta banda a se apresentar era a Algoz, do Rio de Janeiro (do conjunto de favelas da Maré). Com uma vocalista de voz grave e afinada, a banda apresentava canções com letras em português, como Fungos (que possui videoclipe), “Lobotomia” e a semi-balada “Verdades e Mentiras”, alternando peso e melodia.
Uma coisa que me chamou atenção foi as redes sociais que as bandas utilizam para se divulgar: a vocalista citava a página oficial da Algoz no Facebook. Pelo visto, Mark Zuckerberg teve sucesso ao tentar ocupar agora o papel de redes outrora populares como o quase finado Myspace.
No entanto, o Grito Rock é um festival viabilizado pela plataforma Toque No Brasil, antiga parceira do Fora do Eixo (idealizador do Grito Rock) que agora foi comprada pelo próprio. O Toque No Brasil é uma tecnologia muito interessante, reunindo em uma mesma plataforma produtores, músicos e casas de show, negociando entre si.
Para se inscreverem no festival, as bandas precisam criar um perfil na plataforma e se candidatar aos eventos. Porém, esta parece ser a única utilização das bandas (ao menos no Rio) da plataforma: não vejo, nos shows que vou, nenhuma banda citando o Toque No Brasil como perfil. Normalmente, a maioria das bandas tem seu próprio site/blog ou citam o Facebook, muito forte no momento. Myspace e Palco MP3 me parecem relativamente abandonados.
Já era o momento da Primícia (da vocalista e produtora do evento Thuany Motta), subir ao palco. Mal começavam seu show e a cantora convocava uma roda de pogo, que automaticamente se formava na plateia. A Primícia conta com baixo, guitarra, bateira e vocal (todos produzindo o evento), em um som que funde gêneros como hard rock, grunge e heavy metal. Lançaram na MTV Brasil o clipe de Siga o Coelho Branco, tocada no show.
As covers também ajudam a definir a banda. Apresentavam “Ace Of Spades”, clássico do Motörhead, e a vocalista entrava na roda enquanto o baixista continuava os vocais.
Em um determinado momento, Thuany chama Franklin, vocal do Maieuttica, para cantar junto a “Gêmeos”, próximo clipe da Primícia. A música é um new metal/metalcore alternando os vocais femininos de Thuany com o gutural de Franklin. Grande momento.
Logo depois, Thuany perguntava, para alegria da plateia: “quem aí quer Iron Maiden?”, e tocavam “Be quick, or be dead”. O headbanging comia solto e a banda emendava em “Paranoid”, do Black Sabbath. A euforia era tanta que o público pegava o microfone da cantora e se arriscava nas melodias. A banda partia então para uma música própria, “Metamorfose”, com o baixista tocando no meio da plateia, e avisava que esta semana vão divulgar em sua página oficial no Facebook o site novo. Fecharam o show com uma cover de “Enter Sandman”, do Metallica.
O clima pesava (no som, obviamente) com a banda Ágona, talvez a mais furiosa da noite, com sonoridade death metal e nuances grindcore. Mesmo com o vocal sinistramente gutural de Alan Muniz, era possível entender as letras em português da banda. Fiquei surpreso. Alan também alternava os vocais, entremeando guturais com viscerais, como bem me lembraram Natália e Dover Lopes.
Em meio à fúria extrema, o vocalista ajoelhava e repetia (sem gutural): “esse é o destino da nossa salvação. Aleluia, irmãos! O resultado da nossa criação”. A roda de pogo não parava enquanto o vocalista mordia o microfone e berrava. Percebi também em um momento que ele sugeriu com o dedo a formação de uma nova roda, sendo atendido prontamente pelo público. Terminavam a música com um trecho melódico, cantado também pelos demais músicos.
A Ágona anunciava então que iria tocar uma que “está no perfil do face”, avisado que lá encontramos o CD para download, e que em breve estarão vendendo a versão física do álbum. Finalizavam com a música “Utopia”, e novamente o vocalista simulava uma reza. Desta vez não entendi o que dizia a “oração”.
Finalizando o evento, a Cervical, banda que conheci pouco antes conversando na banquinha, armava seu pano de fundo no palco, com a logo da banda. O grupo apresentava um metalcore com influências de hardcore old school. Agora não apenas a roda abria, mas rolava stage diving também. O vocalista berrava músicas como Dar o Sangue, que possui um videoclipe gravado.
Durante a apresentação, Dover me alerta que uma das grandes influências da Cervical é a Confronto, também de metalcore. Outra banda que Dover cita como sendo de grande influência para as bandas da região é a Solstício. Dover também me fala da existência, na região, de grupos skinheads e punks, que convivem harmonicamente (coisa rara até um tempo atrás) e diz que esses grupos costumam frequentar shows de bandas hardcore como a Cervical.
De relance, durante o show, ouvi o desabafo de uma fã ao meu lado: “eu sou a única pessoa de Arraial (do Cabo) que veio! O pessoal de lá não prestigia! Até gente de Macaé tem aqui!”, o que me levou a pensar na questão da união e troca entre cidades próximas: isso poderia perfeitamente ser ouvido em um show em São Gonçalo (cidade vizinha à minha) em relação à Niterói (cidade onde moro). Daí a importância de pessoas mapeando, não apenas as bandas de suas cidades, mas também casas de show, produtores e público.
A Cervical encerrava o show com a platéia pedindo mais. A banda não tocou mais músicas em respeito à hora já avançada (22hs): o local do evento é residencial.
Na saída, uma grata surpresa: um dos participantes do evento me pedia informação (que eu obviamente não sabia), e notei alguns CDs na mão dele. Pedi para ver, procurando saber que bandas eram aquelas. Descobri então que uma destas bandas, a Abomination Wide, de Rio das Ostras, tinha comparecido ao evento e distribuído gratuitamente seu disco físico para quem quisesse levar (como não vi isso?). Em tempos de cultura digital, brigas por direitos autorais, iTunes e download pago, novos artistas descobrem a distribuição física gratuita de CDs como estratégia de divulgação.
Saindo da casa de shows e dando de cara com a praia, pensava no divertido contraste (ao menos pra mim) entre clima praiano e show de rock pesado. Em plena Região dos Lagos, jovens se mobilizam em torno de gêneros musicais extremos de sua preferência e evidenciam isto em performances corporais, vestuários, acessórios, tatuagens, piercings e alargadores. E também rodas de pogo e stage divings. Assim como qualquer outro gênero, rock pesado também aciona o corpo, a dança, afetividades, identidades e todo um imaginário popular.
Como afirma Jeder Janotti (professor da UFPE e coordenador do grupo de pesquisa Mídia e Música Popular Massiva), o Heavy Metal (e aí incluo demais gêneros do rock extremo) é uma experiência simbólica; um campo de produção de sentido para além da simples classificação de estilo musical; um lugar onde percebemos que os símbolos atuam na ‘experiência vivida’, “como um espaço onírico que permite aos headbangers a partilha de sentimentos e atitudes diante do mundo contemporâneo.” (Jeder Janotti – “666 THE NUMBER OF THE BEAST: Alguns apontamentos sobre a experiência simbólica a partir das letras, crânios, demônios e sonhos do heavy metal”).
Ao chegar, deparei-me com o thrash metal com influências de heavy da Lethal Dose, de Barra de São João-RJ. A banda apresentava uma execução extremamente coesa, com ótimo vocal e influências de Metallica, Megadeth e Judas Priest. Fechavam o show com a ótima Jesus Super Christ, com refrão tão marcante que me levou a achar que tratava-se de um cover. Engano meu, é composição própria. Segundo anunciava o vocalista, estão prestes a lançar um novo EP.
A próxima a se apresentar era a Maieuttica, do Rio de Janeiro. Com dois vocalistas de boné, a banda abusava dos graves, com passagens grindcore/new metal e os vocais se alternando: um cantava trechos melódicos; o outro, berros guturais. A plateia demonstrou conhecer as músicas, abrindo rodas de pogo e performatizando todas as músicas com pulos, headbanging e socos no ar. A Maieuttica também apresentava músicas que vão entrar em seu novo EP, ainda em gravação, e uma cover de “Before I Forget”, do Slipknot. Após uma participação do vocalista da banda Ágona (que se apresentaria mais tarde), era a vez de Thuany, da Primícia, participar, antes de encerrarem o show.
Durante o evento eu encontrava minha colega da UFF e Labcult, Natália Ribeiro e (meu então amigo do facebook) Dover Lopes (da banda Indic Blue), que me davam dicas sobre as bandas locais e seus gêneros musicais. O encontro me lembrou da movimentação e parcerias do coletivo Juventude Rock na Região dos Lagos. Natália, além de editora do blog Rockalogy e participante do Metal Busted e do M.U.C. (Movimento Underground Carioca), também encabeça um mapeamento online de bandas de rock do Estado do Rio de Janeiro, o Levantamento de Bandas RJ. Esta plataforma tem a intenção de reunir dados e informações importantes sobre a cena do rock no estado, para se pensar em ações em conjunto e possíveis parcerias. Alguns dias antes do evento, eu havia notado uma postagem na página oficial do Facebook da Juventude Rock estimulando as bandas da região a participarem do mapeamento.
Notei também a participação de expositores no evento: Thiago Abs com sua mesa repleta de Zines produzidos por ele; Pascoal Mello, da banda Cervical, com CDs e camisas de sua banda e também de bandas parceiras: “isso é costume entre os artistas, um ajuda o outro; quando viajamos, não levamos apenas nossos CDs, mas ajudamos a divulgar também os de outros artistas”, revelava o vocalista da Cervical (que se apresentaria mais tarde). Depois do show, a Maieuttica também montava sua banquinha com produtos. Além disso, muitos fotógrafos registravam o festival, inclusive um jornalista da Folha Tamoios. Chamava atenção também um banner da Agatao Tattoo, apoiadora do festival.
A quarta banda a se apresentar era a Algoz, do Rio de Janeiro (do conjunto de favelas da Maré). Com uma vocalista de voz grave e afinada, a banda apresentava canções com letras em português, como Fungos (que possui videoclipe), “Lobotomia” e a semi-balada “Verdades e Mentiras”, alternando peso e melodia.
Uma coisa que me chamou atenção foi as redes sociais que as bandas utilizam para se divulgar: a vocalista citava a página oficial da Algoz no Facebook. Pelo visto, Mark Zuckerberg teve sucesso ao tentar ocupar agora o papel de redes outrora populares como o quase finado Myspace.
No entanto, o Grito Rock é um festival viabilizado pela plataforma Toque No Brasil, antiga parceira do Fora do Eixo (idealizador do Grito Rock) que agora foi comprada pelo próprio. O Toque No Brasil é uma tecnologia muito interessante, reunindo em uma mesma plataforma produtores, músicos e casas de show, negociando entre si.
Para se inscreverem no festival, as bandas precisam criar um perfil na plataforma e se candidatar aos eventos. Porém, esta parece ser a única utilização das bandas (ao menos no Rio) da plataforma: não vejo, nos shows que vou, nenhuma banda citando o Toque No Brasil como perfil. Normalmente, a maioria das bandas tem seu próprio site/blog ou citam o Facebook, muito forte no momento. Myspace e Palco MP3 me parecem relativamente abandonados.
Já era o momento da Primícia (da vocalista e produtora do evento Thuany Motta), subir ao palco. Mal começavam seu show e a cantora convocava uma roda de pogo, que automaticamente se formava na plateia. A Primícia conta com baixo, guitarra, bateira e vocal (todos produzindo o evento), em um som que funde gêneros como hard rock, grunge e heavy metal. Lançaram na MTV Brasil o clipe de Siga o Coelho Branco, tocada no show.
As covers também ajudam a definir a banda. Apresentavam “Ace Of Spades”, clássico do Motörhead, e a vocalista entrava na roda enquanto o baixista continuava os vocais.
Em um determinado momento, Thuany chama Franklin, vocal do Maieuttica, para cantar junto a “Gêmeos”, próximo clipe da Primícia. A música é um new metal/metalcore alternando os vocais femininos de Thuany com o gutural de Franklin. Grande momento.
Logo depois, Thuany perguntava, para alegria da plateia: “quem aí quer Iron Maiden?”, e tocavam “Be quick, or be dead”. O headbanging comia solto e a banda emendava em “Paranoid”, do Black Sabbath. A euforia era tanta que o público pegava o microfone da cantora e se arriscava nas melodias. A banda partia então para uma música própria, “Metamorfose”, com o baixista tocando no meio da plateia, e avisava que esta semana vão divulgar em sua página oficial no Facebook o site novo. Fecharam o show com uma cover de “Enter Sandman”, do Metallica.
O clima pesava (no som, obviamente) com a banda Ágona, talvez a mais furiosa da noite, com sonoridade death metal e nuances grindcore. Mesmo com o vocal sinistramente gutural de Alan Muniz, era possível entender as letras em português da banda. Fiquei surpreso. Alan também alternava os vocais, entremeando guturais com viscerais, como bem me lembraram Natália e Dover Lopes.
Em meio à fúria extrema, o vocalista ajoelhava e repetia (sem gutural): “esse é o destino da nossa salvação. Aleluia, irmãos! O resultado da nossa criação”. A roda de pogo não parava enquanto o vocalista mordia o microfone e berrava. Percebi também em um momento que ele sugeriu com o dedo a formação de uma nova roda, sendo atendido prontamente pelo público. Terminavam a música com um trecho melódico, cantado também pelos demais músicos.
A Ágona anunciava então que iria tocar uma que “está no perfil do face”, avisado que lá encontramos o CD para download, e que em breve estarão vendendo a versão física do álbum. Finalizavam com a música “Utopia”, e novamente o vocalista simulava uma reza. Desta vez não entendi o que dizia a “oração”.
Finalizando o evento, a Cervical, banda que conheci pouco antes conversando na banquinha, armava seu pano de fundo no palco, com a logo da banda. O grupo apresentava um metalcore com influências de hardcore old school. Agora não apenas a roda abria, mas rolava stage diving também. O vocalista berrava músicas como Dar o Sangue, que possui um videoclipe gravado.
Durante a apresentação, Dover me alerta que uma das grandes influências da Cervical é a Confronto, também de metalcore. Outra banda que Dover cita como sendo de grande influência para as bandas da região é a Solstício. Dover também me fala da existência, na região, de grupos skinheads e punks, que convivem harmonicamente (coisa rara até um tempo atrás) e diz que esses grupos costumam frequentar shows de bandas hardcore como a Cervical.
De relance, durante o show, ouvi o desabafo de uma fã ao meu lado: “eu sou a única pessoa de Arraial (do Cabo) que veio! O pessoal de lá não prestigia! Até gente de Macaé tem aqui!”, o que me levou a pensar na questão da união e troca entre cidades próximas: isso poderia perfeitamente ser ouvido em um show em São Gonçalo (cidade vizinha à minha) em relação à Niterói (cidade onde moro). Daí a importância de pessoas mapeando, não apenas as bandas de suas cidades, mas também casas de show, produtores e público.
A Cervical encerrava o show com a platéia pedindo mais. A banda não tocou mais músicas em respeito à hora já avançada (22hs): o local do evento é residencial.
Na saída, uma grata surpresa: um dos participantes do evento me pedia informação (que eu obviamente não sabia), e notei alguns CDs na mão dele. Pedi para ver, procurando saber que bandas eram aquelas. Descobri então que uma destas bandas, a Abomination Wide, de Rio das Ostras, tinha comparecido ao evento e distribuído gratuitamente seu disco físico para quem quisesse levar (como não vi isso?). Em tempos de cultura digital, brigas por direitos autorais, iTunes e download pago, novos artistas descobrem a distribuição física gratuita de CDs como estratégia de divulgação.
Saindo da casa de shows e dando de cara com a praia, pensava no divertido contraste (ao menos pra mim) entre clima praiano e show de rock pesado. Em plena Região dos Lagos, jovens se mobilizam em torno de gêneros musicais extremos de sua preferência e evidenciam isto em performances corporais, vestuários, acessórios, tatuagens, piercings e alargadores. E também rodas de pogo e stage divings. Assim como qualquer outro gênero, rock pesado também aciona o corpo, a dança, afetividades, identidades e todo um imaginário popular.
Como afirma Jeder Janotti (professor da UFPE e coordenador do grupo de pesquisa Mídia e Música Popular Massiva), o Heavy Metal (e aí incluo demais gêneros do rock extremo) é uma experiência simbólica; um campo de produção de sentido para além da simples classificação de estilo musical; um lugar onde percebemos que os símbolos atuam na ‘experiência vivida’, “como um espaço onírico que permite aos headbangers a partilha de sentimentos e atitudes diante do mundo contemporâneo.” (Jeder Janotti – “666 THE NUMBER OF THE BEAST: Alguns apontamentos sobre a experiência simbólica a partir das letras, crânios, demônios e sonhos do heavy metal”).
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