sábado, 3 de agosto de 2013

O legado que o papa Francisco deixa ao povo brasileiro


Leonardo Boff

 Não é fácil em poucas palavras resumir os pontos relevantes das intervenções do papa Francisco no Brasil. Enfatizo alguns com o risco de omitir outros importantes.
O legado maior foi a figura de Francisco: um humilde servidor da fé, despojado de todo aparato, tocando e deixando-se tocar, falando a linguagem dos jovens e as verdades com sinceridade. Representou o mais nobre dos líderes, o líder servidor que não faz referência a si mesmo, mas aos outros, com carinho e cuidado, evocando esperança e confiança no futuro.
No campo político, encontrou um país conturbado pelas multitudinárias manifestações dos jovens. Defendeu sua utopia e o direito de ser ouvidos. Apresentou uma visão humanística na política, na economia e na erradicação da pobreza. Criticou duramente um sistema financeiro que descarta os dois polos: os idosos, porque não produzem, e os jovens, não criando-lhes postos de trabalho. Uma sociedade assim pode desabar.
O tema da ética era recorrente, fundada na dignidade transcendente da pessoa. Com referência à democracia, cunhou a expressão “humildade social”, que é falar olho no olho, entre iguais, e não de cima para baixo. Apontou uma opção sempre possível: o diálogo construtivo. Três categorias sempre voltavam: o diálogo como mediação para os conflitos, a proximidade com as pessoas para além de todas as burocracias e a cultura do encontro.
No campo religioso, foi mais fecundo e direto. Reconheceu que “jovens perderam a fé na Igreja e até mesmo em Deus pela incoerência de cristãos e de ministros do evangelho”. O discurso mais severo reservou-o para os bispos e os cardeais latino-americanos. Conclamou-os não apenas a abrir as portas para todos, mas a saírem em direção ao mundo e para as “periferias existenciais”. Criticou a “psicologia principesca” de membros da hierarquia. Dois eixos devem estruturar a pastoral: a proximidade do povo, para além das preocupações organizativas, e o encontro marcado de carinho e ternura. Entende a Igreja como mãe que abraça, acaricia e beija. A Igreja não pode ser controladora e administradora, mas servidora e facilitadora.
SOLIDARIEDADE
Ademais, deu centralidade aos leigos para, junto com os pastores, decidirem os caminhos da comunidade. O diálogo com o mundo moderno e a diversidade religiosa: o papa Francisco não mostrou nenhum medo. Quer inserir-se num profundo sentido de solidariedade para com os privados de comida e de educação. Todas as confissões devem trabalhar juntas em favor das vítimas. Pouco importa se o atendimento é feito por um cristão, um judeu, um muçulmano ou outro. O decisivo é que o pobre tenha acesso à comida e à educação.
Aos jovens, dedicou palavras de entusiasmo e de esperança. Contra a cultura do consumismo e da desumanização, convocou-os a serem “revolucionários” e “rebeldes”. É através da janela dos jovens que entra o futuro. Criticou o restauracionismo de alguns grupos e o utopismo de outros. Colocou o acento no hoje: “no hoje se joga a vida eterna”. Desafiou-os para o entusiasmo, para a criatividade e para ir pelo mundo espalhando a mensagem generosa e humanitária de Jesus, o Deus que realizou a proximidade e marcou encontro com os seres humanos.
Na celebração final, havia mais de 3 milhões de pessoas, alegres, festivas e na mais absoluta ordem. Desceu uma aura de benquerença, de paz e de felicidade sobre o Rio de Janeiro e sobre o Brasil que só podia ser a irradiação do terno e fraterno papa Francisco e do sentimento divino que soube transmitir.

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