Podia ser um sábado ou domingo. Talvez feriado. Não importa o dia.
Importa que ela estava só em casa. Entediada provavelmente. Como acontecia
todas as vezes que ela se via sozinha em casa. Na cozinha lavava os pratos do
jantar que ela preparara para comer sozinha. E lavava sozinha. E não
cantarolava. Estava lá. De pé. Molhada por ser desastrada. Sozinha por não ter
ninguém em casa. Agitação na rua tinha e era isso que a perturbava. O mundo não
pode ser feliz quando ela está cansada. Quando ela está de pijama trancada em
casa. Quando ela não quer conversar, quando ela não quer pedir jantar só pra
uma pessoa. Ninguém tem o direito de esquecer que ela está esquecida. Nem de
não lavar louça quando ela tem a dela pra lavar. Estava lá. Ela. Com a mão
submersa na água na pia, com a cabeça submersa em pensamentos. E uma buzina
toca. Dezesseis segundos. Ela contou. Ela se perguntava o que faz alguém
pressionar a buzina durante dezesseis segundos. Alguém que não está em casa.
Sozinho. Com a roupa molhada da água pia. Sentindo frio porque faz frio essa
época do ano. Lavando louça da comida que ela própria fez e que ninguém provou
e que ela teve que comer sozinha e depois ainda lavar a louça sozinha e molhar
a roupa porque é desastrada e não ter ninguém pra reclamar ou rir por ter feito
comida pra uma só uma pessoa sozinha. Nem deu tempo de acabar de pensar e
novamente a buzina. Novos dezesseis segundos. Ela contou. Talvez não exatos.
Mas de acordo com ela dezesseis segundos. Seria homem ou mulher? Sozinho ou
não. Qual o modelo do seu carro? Sempre gostou de buzina? De som alto? De
perturbar quem está sozinho? De interromper pensamentos importantes de quem
precisa se resolver? Estaria chamando alguém? Alguém que o tiraria da monotonia
daquele sábado ou domingo. Talvez feriado. Seria agora ela a única pessoa a
estar só. Se tocar a buzina de novo. Ela pensava. Eu desço e pergunto os
motivos. Digo que me incomoda. Que atrapalha a minha vida. Que eu detesto
buzina. Som alto. Voz de quem quer seja, desde que não seja a minha. E mais uma
vez a buzina. E mais uma vez o ódio crescente. Ela nem pensou agora. Desceu. De
escada porque não quis encontrar ninguém no elevador. Desceu como que pra matar
alguém. Pra gritar na rua. Pra dizer tudo que ela estava sentindo. Tudo que
atrapalhava a vida dela. Ela desceu com a roupa molhada da água da pia. Com
sabão nas mãos. Com a esponja trancada na mão. Ela ia dizer. Como pode alguém
lavar a louça enquanto alguma pessoa louca aperta a buzina por dezesseis
segundos. Que pressa é essa. Onde vai. Com quem vai. Por que não me leva. Por
que não me arranca dessa pia. Desse dia. Dessa solidão. A rua estava vazia. O
sinal aberto. Tarde demais seria. Mas ela estava na rua. Que faria ela se não
acordar da monotonia e finalmente procurar o que a fazia feliz. Agradecendo a
buzina. Ao sinal fechado. E a pessoa que pressionava a buzina por dezesseis
segundos impossibilitando qualquer chance de ser alheio ao mundo.
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